Gastronomia

O renascimento da cozinha nordestina: chefs que estão levando o sertão para o mundo

Há algo acontecendo nas cozinhas de alguns dos melhores restaurantes do Brasil — e não é o que você esperaria. Enquanto a gastronomia global continua fascinada pela cozinha japonesa, francesa e nórdica, um grupo crescente de chefs brasileiros está olhando para dentro, para o Nordeste, para o sertão, para os ingredientes e técnicas que por muito tempo foram vistos como "comida de pobre" e que agora estão sendo reconhecidos como o que sempre foram: um patrimônio gastronômico extraordinário.

O movimento não é novo — começou há mais de uma década com pioneiros como Rodrigo Oliveira, do Mocotó em São Paulo, que transformou a cozinha nordestina em alta gastronomia sem perder sua alma popular. Mas nos últimos anos, o movimento ganhou escala e profundidade. Hoje, há chefs em Fortaleza, Recife, Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro que estão construindo carreiras inteiras em torno da reinterpretação criativa da culinária nordestina.

"A cozinha nordestina tem uma complexidade de sabores que a maioria das pessoas nunca explorou. Temos ingredientes que ninguém usa, técnicas que estão desaparecendo, histórias que precisam ser contadas." — Chef Ana Lima, Fortaleza

Os ingredientes esquecidos

Um dos aspectos mais fascinantes desse movimento é a redescoberta de ingredientes que estavam desaparecendo. O licuri, uma palmeira nativa do sertão baiano, cujos frutos têm um sabor que lembra coco com notas de baunilha. A umbu, fruta do umbuzeiro que cresce em condições extremas de seca e que tem uma acidez refrescante única. O maxixe, o quiabo, o jerimum — vegetais que fazem parte da cozinha nordestina há séculos mas que raramente aparecem em menus sofisticados.

Chefs como Ana Lima, em Fortaleza, e Marcus Samuelsson, que passou uma temporada estudando a cozinha baiana antes de voltar para Nova York, estão usando esses ingredientes em preparações que surpreendem até quem cresceu comendo-os. O licuri vira um creme delicado que acompanha peixes do litoral cearense. A umbu se transforma em um sorbet que captura toda a sua acidez característica.

As técnicas que estão sendo preservadas

Além dos ingredientes, há um esforço de preservação de técnicas tradicionais que estavam em risco de desaparecer. A defumação de carnes com madeiras nativas do sertão. A fermentação de bebidas como a jurubeba e o mocororó. O uso do barro como utensílio de cocção, que confere sabores únicos que nenhum equipamento moderno consegue replicar.

Esses chefs não estão apenas cozinhando — estão documentando, pesquisando, viajando pelo interior do Nordeste para aprender com cozinheiras que guardam saberes de gerações. É um trabalho que tem tanto de antropologia quanto de gastronomia.

O reconhecimento internacional

O resultado desse trabalho está chegando ao reconhecimento internacional. Restaurantes brasileiros com foco na cozinha nordestina aparecem em listas de melhores do mundo. Chefs brasileiros são convidados para residências em restaurantes europeus e americanos. E ingredientes como o tucupi, a mandioca e o açaí — que já tinham reconhecimento internacional — estão sendo acompanhados por novos protagonistas como o licuri e a umbu.

Para quem acompanha a gastronomia brasileira há décadas, é um momento de orgulho e de esperança. A cozinha do sertão, que por tanto tempo foi vista como inferior, está finalmente recebendo o reconhecimento que sempre mereceu.

Renata Souza Jornalista gastronômica e crítica de restaurantes. Percorre o Brasil em busca das histórias por trás dos pratos.